"No momento em que o amor se torna apego, ele passa a ser um relacionamento. No momento em que o amor fica exigente, ele é uma prisão. Ele destruiu sua liberdade; você não pode voar no céu, você está engaiolado. E a pessoa se espanta...particularmente eu me esanto. As pessoas se espantam comigo, o que eu fico fazendo sozinho em meu quarto? E eu me espanto com elas, o que essas duas pessoas ficam fazendo junta? Sozinho, estou pelo menos à vontade. Se alguém estiver presente, haverá problema, algo irá acontecer. Se o outro estive presente, o silêncio não poderá permanecer: o outro vai perguntar algo, dizer algo, fazer algo, ou forçá-lo a fazer algo. Além do mais, se a mesma pessoa fica continuamente, dia após dia...
O homem que inventou a cama de casal foi um dos maiores inimigos da humanidade. Nem na cama se tem liberdade! Você não pode se mexer, o outro está ao lado. E, na maioria das vezes, o outro toma o maior espaço. Se você conseguir arranjar um espacinho, terá sorte. E lembre-se, o outro cresce. Este é um mundo muito estranho, onde as mulheres crescem e os homens encolhem. E toda a responsabilidade é do homem; ele faz com que essas mulheres engordem, engravidem. Mais problema pela frente. Depois que duas pessoas se juntam, uma do sexo masculino e outra do sexo feminino, logo chega a terceira. Se ela não chegar, os vizinhos ficarão ansiosos: "O que está acontecendo? Por que a criança não vem?"
Eu morei com muitas pessoas, em muitos lugares e ficava surpreso; por que as pessoas ficam tão ansiosas para criarem problemas para as outras? Se uma pessoa é solteira, elas se preocupam: "Por que você não se casa?" Como se o casamento fosse alguma lei universal que precisa ser seguida. Torturada por todos, a pessoa acha que é melhor que se case - pelo menos essas pessoas vão parar de torturá-la. Mas ela está errada; uma vez casada, elas começarão a perguntar: "Quando terão filhos?"
Ora, esse é um problema muito difícil. Não está em suas mãos: o filho pode vir, pode não vir e, se vier, virá quando for o momento. Mas as pessoas vão incomodar você..." Um lar não é um lar sem uma criança." É verdade, porque sem uma criança, um lar parece um templo silencioso; com uma criança, o lar parece um hospício! E com muitas crianças, os problemas se multiplicam.
Eu me sentei em silêncio em meu quarto durante toda a minha vida. Não incomodo ninguém, nunca perguntei a alguém: "Por que você está casado? Por que não teve um filho?" Não acho que seja civilizado fazer essas perguntas, essas indagações; isso é desrespeitar a liberdade alheia.
E as pessoas continuam vivendo com o cônjuge, com os filhos... E como a presença de cada novo membro que entra na família vai perturbar muitas coisas, você automaticamente fica cada vez menos sensível. Você escuta menos, enxerga menos, cheira menos, saboreia menos.
(...)
E no fundo, milhões de pessoas sentem que, se tivessem ficado sozinhas, se nunca tivessem se importado com o amor e o casamento... mas agora, nada pode ser feito, não se pode voltar atrás, não se pode ficar novamente solteiro. Na verdade, você pode ter ficado tão acostumado com a prisão que não pode abandoná-la. Ela é um tipo de segurança; é aconchegante, embora miserável. O cobertor está apodrecido, mas a cama de casal... pelos menos você não está só em sua infelicidade, alguém a está compartilhando. O fato é: alguém está criando infelicidade para você e você está criando infelicidade para essa pessoa.
O amor precisa ser do tipo que dá liberdade, e não novas correntes a você; um amor que lhe dá asas e o apóia para voar tão alto quanto possível.
(...)"
Do livro Amor, liberdade e solitude
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