segunda-feira, 28 de maio de 2012

Se se morre de amor

Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos; 
Temer qu'olhos profanos nos devassem 
O templo, onde a melhor porção da vida 
Se concentra; onde avaros recatamos 
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços: 
Isso é amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam, 
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

Gonçalves Dias



Se se morre de amor? Não, não se morre de amor. Sou prova disso. Eu e tantos outros. Ninguém morre de amor. Se vive de amor. Poderia dizer que estou morrendo de amores por alguém. Mas eu digo melhor; digo que eu estou vivendo de amores por um certo Alfajor do Monte das Oliveiras Crocantes. 

  Uma oliveira "desnuda" por causa do inverno. O inverno que tanto te agrada. O inverno que me agrada quando tenho você pra me esquentar.


domingo, 27 de maio de 2012

Vive comigo?

Se a vida a dois é difícil? É sim. Mas é mais difícil, porque não é a dois. É a três, a quatro, a cinco... Mas o amor e a vontade de estar juntos é maior do que essa dificuldade. E continuamos construindo a casinha, encaixando as pecinhas do lego, da vida.

Pili

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ninguém é perfeito

"Você irá encontrar a tampa da sua panela."

"Vocês foram feitos um para o outro." 

Como resultado desses "dizeres" tão compartilhados ao longo da vida, nos deparamos com questionamentos do tipo:
"Por que as pessoas não são exatamente do jeito que a gente quer?" 
Quem nunca se fez essa pergunta? 
Quem nunca pensou que, realmente, a vida seria mais simples se quem escolhemos para estar ao nosso lado, fosse a nossa visão exata de companheiro ideal? 
Quem nunca achou que podia, quis ou tentou mudar/moldar o outro?
Eu já. E não faz muito tempo.
Acredito que seria mais fácil, mas imagino que não teria graça, tampouco ficaríamos satisfeitos. 
A gente sempre ouve dizer que nenhum relacionamento é um "mar de rosas", como vemos nos filmes, novelas, pinturas ou como ouvimos nas canções e na voz de uma amiga ou amigo relatando sobre o fato de não ter brigas, não ter falta de sintonia com seus parceiros. Falar é fácil. Viver e quebrar a cara são outros quinhentos.
Hoje, por exemplo, vejo que "I was made for loving you baby/You were made for loving me" do Kiss e "I was born to love you/ with every single beat of my heart" do Queen são refrões que não fazem o menor sentido. Agora ouço-os e canto sem levar a letra a sério. Só pela melodia, pela emoção. 
Realmente devemos pensar que nascemos para alguém? Que existe alguém com as qualidades e defeitos suportáveis descritos e desejados por nós em algum momento da vida? Ou ainda que existe alguém que nem defeitos tenha? Impossível. Ademais, somos seres pensantes e temos desejos voláteis. Nossos padrões podem mudar. Logo, a nossa visão de ideal pode não ser a mesma de ontem. 
Pois é. Ninguém é perfeito. Portanto, nenhum relacionamento será perfeito. As pessoas não são robôs. As pessoas não mudam e, apesar de ter ouvido isso a vida toda, eu só aprendi na prática. Entre vivências e reflexões, aprendi que, mesmo te amando, ela(e) não vai deixar de ser preguiçosa(o), não vai emagrecer, não vai parar de beber, não vai parar de fumar, não vai deixar de ser ciumenta(o), não vai lavar a louça, não vai levantar a bunda da cadeira pra procurar um emprego, enquanto ela(e) não se convencer de que o que está fazendo é o melhor pra ela(e), antes de tudo. 
Indubitavelmente ela(e) te ama. Mas eu também aprendi que o amor não é tudo. De que adianta o amor se não houver cumplicidade, interesses em comum, respeito, ganas de melhorar, evoluir. Não existe perfeição, existe a construção. E a construção não deve ser em busca da perfeição, mas sim de uma harmonia durável, capaz de tornar o caminho muito mais agradável.
Será que deixei de ser romântica? Ou deixei de ser "cega"? Não sei. Acho que virei adepta do romantismo pragmático. Nada extremo, muito menos superficial. Talvez seja esse o equilíbrio que eu tanto buscava.


Pili




sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Desaprendendo" e construindo

Não sabe de onde vem tanta insegurança. Tenta de todas as formas revirar o passado para descobrir a raiz de tal problema. Sente-se amada, porém questiona:
- Por que você me ama?
Talvez o problema esteja na tentativa de ser perfeita, nos valores construídos baseados em contos de fadas e na doutrina cristã. Na visão superestimada dos exemplos de relacionamentos bem sucedidos na família.
- Não existe casal perfeito! - ele havia dito a ela há alguns anos.
Para ela, o que ele havia dito tinha fundamento. Era algo a se pensar. Mas ela "aprendeu", ao longo dos anos, que casais eram como pares iguais, almas gêmeas, metades que se completavam. "Eu encontrei o amor da minha vida". "Ele tem tudo a ver comigo". "Temos muito em comum". "Gostamos das mesmas coisas, pensamos de forma parecida em tudo". Era o que quase sempre escutava...

NÃO! As pessoas não deveriam disseminar esse tipo de pensamento como certo. Aliás, quando o assunto é amor, não há que se falar em certo ou errado. Hoje eu enxergo isso! Por que as pessoas valorizam e enumeram como ideais esses modelos de união? Não é muito mais enriquecedor achar alguém que irá te acrescentar valores, questionamentos, provocar revoluções? Afinal, vocês se encontraram por perseguirem um mesmo fim, conscientes de que irão chegar lá através de meios diferentes, pensamentos diferentes, criações diferentes, vivências distintas.
"Os opostos se atraem", como dizem por aí. Para alguns faz sentido, para outros não. Tampouco estou dizendo que uma certa afinidade não seja importante. No meu caso, há a afinidade, há o amor e há um trabalho a ser feito a fim de respeitar a individualidade alheia, melhorar algumas ideias para enriquecer e trazer diversidade ao caminho.

Pili

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Caminhando

Desejo a todos aqueles que almejam encontrar um(a) companheiro(a) para a VIDA:
- que encontrem alguém que provoque questionamentos antes não explorados;
- que encontrem alguém que provoque uma mudança, uma melhora, uma uma (R)evolução nos conceitos, antes carregados de pré-julgamentos;
- que, mesmo que existam traumas ou sentimentos mal resolvidos, mal interpretados, possa existir uma abertura para novas experiências;
- que possa haver muito diálogo;
- que saibam que ser tudo para alguém é impossível, pois o mundo é vasto;
- que haja a convicção de que devemos ser preciosos para nós mesmos em primeiro lugar;
- que, mesmo ante as divergências e a dor, haja a certeza do amor;
- que haja também a certeza de que nada está perdido e de que as coisas podem sempre melhorar.

Pili

domingo, 6 de maio de 2012

Promessas de casamento

"Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre. "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobra a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros."

Martha Medeiros

Concordo, acredito e era o meu pensamento há um ano! Ainda é! Difícil colocar em prática. Difícil lutar contra esses pensamentos nocivos, carregados de possessividade. Difícil, mas eu prometo afastar qualquer suposição espúria criada pela minha própria imaginação. Prometo procurar trazer sempre harmonia. Prometo parar de prometer para poder relaxar e apreciar a vista! 






terça-feira, 1 de maio de 2012

Aprendendo a viver

"Passo, agora, ao músico. Tu me ensinas como os sons agudos e graves combinam entre si, de que maneira os diferentes sons produzidos pela corda formam uma harmonia. Mostra-me, antes, de que maneira a minha alma poderá ficar em harmonia com ela mesma, de modo que não haja dissonância com as minhas resoluções. Indica-me quais são os tons chorosos, mostrando-me, sobretudo, como, em meio aos infortúnios, não passar a me lamentar."

Sêneca