quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Filhos?

Cara, não sei, mas a ideia de ter filhos sustentada pelo argumento "Quem é que vai cuidar de você quando você estiver velho?", me parece um tanto surreal. Ou ainda "Eu quero ter um 'muleque' pra ensinar as paradas de macho pro 'muleque'". E que tal a ideia de que o Brasil está violento como está, por conta da falta de ensino religioso nas escolas? É claro que o ensino religioso ensina muitos valores, é importante para a formação do indivíduo. Mas por que não um ensino religioso ecumênico? E a filosofia, uma excelente ponte para o autoconhecimento? Afinal, como podemos nos sentir plenos neste mundo se não nos conhecemos, se não nos questionamos, se não questionamos o que nos ensinam, não refletimos para, consequentemente, evoluir?
Cresci sob os fundamentos da religião católica, não renego, apesar de ter tido alguns momentos de revolta, apenas aceito que hoje é algo que não faz mais "parte de mim". Percebo que hoje, ajo de forma muito mais consciente do que quando me submetia a uma religião, a uma doutrina que me dizia o que deveria fazer, e que se não o fizesse, seria punida por isso. Eu precisei questionar os dogmas que foram de certa forma impostos na minha educação, para poder me sentir plena e responsável pelos meus atos. Fui criada em um ambiente tradicional, conservador e católico. Meu pai era irmão missionário, fazemos reuniões semanais em casa (eu, pai, mãe, irmão, irmã), e vivemos em harmonia. Mais harmonia do que nunca, cada um respeitando as escolhas do outro, e tendo liberdade para se descobrir. Será que teria sido assim se eu tivesse continuado minhas idas a Igreja para agradar meu pai? Talvez. É contraditório, pois sempre tivemos ao nosso alcance os ensinamentos da bíblia, as parábolas, e somente entendi o verdadeiro valor das virtudes e dos ensinamentos, após me voltar contra elas, questioná-las; "Devo ser bom por culpa, por que me pedem, ou por que isso é uma escolha minha?" 
Sim, algumas pessoas podem não sentir isso, mas eu sentia quando me considerava católica, sentia muita culpa por tudo. Culpa, medo. Quem sabe eu não teria conseguido continuar indo pra igreja todos os domingos? Acho que não. Por mais que eu me sentisse bem naquele ambiente, gostasse muito de cantar aquelas músicas de louvor, gostasse de todo o simbolismo dos ritos, o fato de não concordar com vários preceitos, e o fato de me sentir culpada e temerosa se eu os desobedecesse, e perceber que não era assim que queria viver, me fizeram renunciar. É claro que neste meio caminho, li vários livros que me ajudaram a me questionar, a questionar meu papel neste mundo. 
Hoje tive que ouvir que o "liberalismo" é que está aumentando a violência. Será? Será que as coisas não estão evoluindo, as pessoas estão se encontrando, e que o que falta é equilíbrio? 
E será que eu devo ter filhos com o intuito de ter seres humanos que um dia irão cuidar de mim? Ter filhos, pensando na licença-maternidade? Devo ter filhos porque a religião me obriga, pelo bem da família tradicional? Devo ter filhos para preencher um vazio, como muitos fazem quando não veem sentido na vida? Devo ter filhos só porque faz parte do cronograma inconsciente? Para alguns é uma afronta, dizer que não quer ter filhos por enquanto, ou que não quer ter filhos. 
Filho é coisa séria, e antes de ter um, é preciso ter condições favoráveis ao crescimento e sustento deste, comprometimento, e, claro, o mínimo de equilíbrio emocional. O mundo precisa de autoconhecimento. Salvaria muitas vidas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Prudência

     "(...) Moral aplicada, dizia eu, e nos dois sentidos do termo: é o contrário de uma moral abstrata ou teórica, mas o contrário também de uma moral negligente. O fato de esta última noção ser contraditória deixa claro quanto a prudência é necessária, inclusive para proteger a moral do fanatismo (sempre imprudente, de tanto entusiasmo) e de si mesma. Quantos horrores consumados em nome do Bem? Quantos crimes, em nome da virtude? Era pecar contra a tolerância, quase sempre, mas também contra a prudência, na maioria das vezes. Desconfiemos desses Savonarola que o Bem cega. Demasiado apegados aos princípios para considerar os indivíduos, demasiado seguros de suas intenções para se preocuparem com as consequências...
     Moral sem prudência é moral vã ou perigosa. "Caute", dizia Spinoza: "Cuidado." É a máxima da prudência, e é preciso ter cuidado também com a moral, quando ela despreza seus limites ou suas incertezas. A boa vontade não é uma garantia, nem a boa consciência uma desculpa. Em suma, a moral não basta à virtude; são necessárias também inteligência e a lucidez. É o que o humor recorda e a prudência prescreve.
     É imprudente ouvir apenas a moral, e é imoral ser imprudente."

André Comte-Sponville, Pequeno tratado de grandes virtudes

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Fidelidade

     "(...)Para o casal é outra história. Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se entendemos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas ideias não é (felizmente!) ter uma só ideia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fáil de viver, talvez, no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja. Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira (fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum...). E tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois preferiria não o ser... O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme, menos o amor do que o sofrimento. Não é mais meu tema. Fidelidade não é compaixão. Serão duas virtudes? Sem dúvida, mas, justamente: são duas. Não fazer sofrer é uma coisa; não trair é outra, e é o que se chama fidelidade.
     O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, naõ bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio vem interromper. Se bem que... Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. "Quero dizer", explicou-me, "ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor... Não quero renegar tudo isso." Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos, ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa, mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. Fidelidade é o amor fiel, dizia eu, e assim é também o casal, mesmo o casal "moderno", mesmo o casal "livre". A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor fiel, e fiel antes de mais nada ao amor.
     Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos.
     O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor?
     Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça."

André Comte-Sponville (Pequeno tratado das grandes virtudes)




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Mundo dicotômico que diz que eu tenho que escolher entre rosa e azul. 
Mundo dicotômico que diz que eu tenho que escolher entre bem ou mal, certo e errado. 
Mundo dicotômico que faz achar que eu sou o paraíso sozinho, que o inferno são os outros. 
Mundo dicotômico que me diz quem eu quero e devo ser, mesmo que eu não queira mais nada. 
Mundo dicotômico que diz coisas que depois tenho que desdizer, pensar coisas que depois tenho que "despensar". 
Mundo dicotômico que me diz pra fugir da minha essência. 
Mundo dicotômico que faz com que eu queira não mais ser "desse mundo" de duas possibilidades. 
Ainda bem que existem outros caminhos, outros mundos. 
E o mais legal é que eu não preciso escolher um só, ou dois, mas vários de uma vez.

Gonzalina

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Fácil ser considerado santo. Mais fácil ainda ser visto como demônio. Difícil mesmo é não ser hipócrita. 
Será que precisamos mesmo de mais? Mais teorias? Mais conceitos? Mais roupas? Ou será que precisamos administrar tudo o que já temos?