Estará a humanidade pronta para uma transformação da consciência, um florescimento interior tão radical e profundo que, comparado a ela, o desabrochar das flores, por mais bonito que seja, pareça apenas
seu pálido reflexo? Seremos capazes de perder a densidade das nossas estruturas mentais condiconadas e nos tornar como cristais ou pedras preciosas, isto é, transparentes à luz da consciência? Conseguiremos desafiar a atração gravitacional do materialismo e da materialidade e permanecer acima da identificação com a forma, que mantém o ego imóvel e nos condena à prisão dentro da nossa própria personalidade?
[...] Quando você descobre a inconsciência em si próprio, aquilo que torna o reconhecimento possível é o surgimento da consciência, é o despertar. Você não pode lutar contra o ego e vencer, assim como não consegue combater a escuridão. A luz da consciência é tudo o que é necessário. Você é essa luz.
[...] A primeira parte, ou o aspecto ruim, dessa verdade é a compreensão de que o estado mental 'normal' de quase todos os seres humanos contém um forte elemento do que podemos chamar de distúrbio, ou disfunção, e até mesmo de loucura. Determinados ensinamentos fundamentais do hinduísmo talvez sejam os que mais se aproximem da ideia de que esse desajuste é uma forma de doença mental coletiva.
[...] Assim, pecar quer dizer errar o sentido da existência humana. Corresponde a viver de maneira deosrientada, cega e, portanto, sofrer e causar sofrimento. Uma vez mais, essa palavra, despojada da sua bagagem cultural e de sentidos equivocados, indica o distúrbio inerente à condição humana.
Medo, cobiça e desejo de poder são as forças motivadoras psicológicas que estão por trás não só dos conflitos armados e da violência envolvendo países, tribos, religiões e ideologias, mas também do desentendimento incessante nos relacionamentos pessoais. Elas produzem uma distorção na percepção que temos dos outros e de nós mesmos. Por meio delas, interpretamos erroneamente todas as situações, o que nos leva a adotar uma ação equivocada para nos livrarmos do medo e satisfazermos nossa necessidade interior de alcançar mais, um poço sem fundo que nunca pode ser preenchido.
A história do comunismo, inspirado originalmente por ideais nobres, ilustra com clareza o que acontece quando as pessoas tentam alterar a realidade externa - no caso, criar um novo mundo - sem realizar nenhuma modificaçãoprévia essencial na sua realidade interior, no seu estado de consciência. Elas fazem planos sem levar em conta o "modelo" de distúrbio que todo ser humano traz dentro de si: o ego.
A maior conquista da humanidade não são as obras de arte nem os inventos da ciência e da tecnologia, mas a identificação do seu próprio distúrbio, da sua própria loucura.
Reconhecer a própria loucura marca, obviamente, o surgimento da sanidade, o início da cura e da transcendência.
Assim, as religiões, numa grande medida, firmaram-se como forças divisoras em vez de unificadoras. Em lugar de estabelecerem o fim da violência e do ódio por meio da compreensão da unicidade fundamental de toda a vida, elas suscitaram mais violência e ódio, mais separações entre indivíduos, religiões e até mesmo rupturas dentro de um mesmo credo. Tornaram-se ideologias, sistemas de crenças com os quais as pessoas podiam se identificar, e elas os usavam para ressaltar sua falsa percepção do eu. Por meio dessas crenças, elas se classificavam como 'certas' e chamavam os outros de 'errados'. Assim, definiam sua identidade diante dos inimigos - os 'outros', os 'não-crentes' ou 'crentes equivocados' - e, algumas vezes, consideravam-se no direito de matá-los. O homem feito 'Deus' na sua própria imagem. O eterno, o infinito, o inominável foi reduzido a um ídolo mental no qual as pessoas tinham de acreditar e que devia ser venerado como 'o meu deus' ou 'o nosso deus'.
[...] Seus ensinamentos, ao contrário das doutrinas da religião principal, enfatizavam a compreensão e a transformação interior.
[...] Muitas pessoas 'religiosas' estão presas nesse nível. Para elas, a verdade equivale ao pensamento. Como estão completamente identificadas com o pensamento (sua mente), consideram-se detentoras exclusivas da verdade, o que é uma tentaiva incosciente de proteger a própria identidade. Elas não compreendem as limitações do pensamento. A seus olhos, qualquer indivíduo que acredite (pense) de modo diferente está errado. Num passado não muito distante, isso lhes serviria de justificativa para matar alguém. E ainda há quem faça isso hoje em dia.
[...] Elas compreendem que seu 'grau de espiritualidade' não está absolutamente relacionado com aquilo em que acreditam, porém que ele tem tudo a ver com seu estado de consciência.
[...] Há instituições religiosas abertas à nova consciência, enquanto outras endurecem suas posições doutrinárias e se tornam parte de todas aquelas estruturas artificiais que o ego coletivo usa para se defender e 'revidar'. Algumas Igrejas e seitas, assim como determinados cultos ou movimentos religiosos, são em essência entidades egóicas coletivas, uma vez que se identificam rigidamente com suas convicções mentais, a exemplo do que fazem os adeptos de qualquer ideologia políticas fechada a todo tipo de interpretação alternativa da realidade.
[...] Estamos chegando ao fim não só das mitologias como também das ideologias e dos sistemas de crenças. A mudança é mais profunda do que o conteúdo da nossa mente e do que nossos pensamentos. [...] E para um indivíduo é uma libertação saber que ele não é aquela 'voz dentro da cabeça'.
O ego não é mais do que isto: identificação com a forma , o que basicamente corresponde a formas de pensamento. Se o mal tem alguma realidade (e ela é uma realidade relativa, e não absoluta), esta também é uma definição dele: identificação com a forma - formas físicas, formas de pensamento. formas emocionais. Isso resulta de uma total falta de consciência da nossa ligação com o todo, da nossa unidade intrínseca com todos os 'outros' e com a Origem. Esse esquecimento é o pecado original, o sofrimento, a ilusão. Quando essa ilusão da completa separação governa tudo o que pensamos e fazemos, que tipo de mundo criamos? Para responder a essa pergunta, observe como as pessoas se relacionam entre si, leia um livro de história ou veja o noticiários na televisão hoje à noite.
Se as estruturas da mente humana permanecerem imutáveis, vamos sempre terminar recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, o mesmo distúrbio."
Eckhart Tolle
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