quinta-feira, 26 de abril de 2012

Errando e aprendendo?

Vocês se apaixonaram. Os dois queriam estar juntos. Estão quase sempre em sintonia. Tudo está maravilhoso. Você está aprendendo, ele está aprendendo. Os dois estão crescendo. Vocês se amam.
O que está errado?
Está errado o fato de achar que o amor que você tem pra oferecer não é o suficiente. Está errado o fato de saber que ele sinta falta de outras mulheres, de coisas que não viveu. Está errado o fato de você não conseguir se concentrar naquilo que se propôs a fazer durante o dia, pois fica tentando encontrar soluções. Traduz as palavras dele de maneira equivocada. Sente-se extraordinária, mas sente que, pra ele, você não é completa, pois ele deseja outras também. Passa a se olhar no espelho de forma diferente, como se tivesse que mudar tudo, pois algo está errado: "Há algo errado comigo? Com o meu jeito? Com o meu corpo?"
É errado achar que se você encontrou alguém e lutou pra poder concretizar os seus anseios com relação a essa outra pessoa, você já tem tudo? É errado achar que a exclusividade é, também, um gesto de amor, de respeito? É errado achar que, apesar de acreditar que o ser humano é naturalmente poligâmico, decidir se entregar a uma só pessoa é um gesto de amor?
Errado é saber de todas as suas qualidades e encontrar mil defeitos em si, pois você passa a achar que o outro não te acha o bastante. Errado é se culpar o tempo todo e achar que ele precisa perdê-la, pois quando não te teve, foi quando mais te fez sentir desejada. Errado é ficar obcecada pelo futuro do pretérito, pensando em todas as coisas que ele poderia ter vivido. Errado é pensar tanto no que o outro quer, esquecer-se de si e voltar a ter dúvidas. Errado é saber que você fez a sua escolha e que está satisfeita com a sua decisão, mas que ele não conseguiu se livrar das orações condicionais.

Afinal, o amor é ou não é uma escolha?

Pili


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Loucos e Santos

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde
"Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu anti socialismo interno.
Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.
Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas diante de qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei onde vão parar minhas idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se.
Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também."

Martha Medeiros